Dona Otília Cavalheiro Asmar, que completou 100 anos no último dia 1º de julho, faleceu nesta segunda-feira (3), em Pompeia, cidade onde construiu uma trajetória marcada pelo trabalho social e pela dedicação aos jovens. Durante quatro décadas, ela atuou no SIM (Serviço de Integração de Menores), instituição que ajudou a criar e que contribuiu para a formação de milhares de adolescentes.
Recentemente, dona Otília recebeu a equipe do jornal O DIA na área externa de sua casa, acompanhada de sua cuidadora e de um amigo que fez parte de sua trajetória. Fez questão de se arrumar: usava brincos e anéis e não abriu mão do batom. Aos 100 anos, mantinha a vaidade e as lembranças que carregava no coração. O relato é publicado agora como uma homenagem à sua memória.
Filha de pai português e mãe estadunidense, dona Otília nasceu em Agudos e mudou-se para Pompeia por volta dos 14 anos. Embora não se lembrasse da data exata, contou que, naquela época, a igreja matriz da cidade, localizada em frente à casa onde morava, ainda não funcionava. “Não tinha nada, nem bancos.”
Já adulta e casada com o funcionário público José Antônio Asmar, envolveu-se com trabalhos sociais e ajudou a criar o SIM de Pompeia, que prepara adolescentes para o mercado de trabalho. Por meio do serviço, existente há 56 anos na cidade, dona Otília contribuiu para que diversos jovens conquistassem o primeiro emprego.
Dos 100 anos de vida, 40 foram dedicados ao SIM. Ela também realizou diversos casamentos como juíza de paz. Embora os números não sejam precisos, a popularidade de dona Otília em Pompeia e o carinho recebido da comunidade demonstram o quanto ela contribuiu para o desenvolvimento e a história da cidade.
Viúva, mãe de um casal de filhos, um deles já falecido, avó e bisavó, dona Otília comemorou, junto com seu centenário, em 1º de julho de 2026, o nascimento da primeira tataraneta.
Entre as lembranças mais marcantes do trabalho social que desenvolveu estavam as viagens à praia proporcionadas aos jovens. “Todo final de ano, levava um grupo de adolescentes para Itanhaém para conhecer a praia”, contou.
Para viabilizar essas viagens, ela firmava, por meio do SIM, parcerias com colônias de férias e recebia ajuda da família Nishimura, ligada ao Grupo Jacto. “Seu Shunji e seu Takashi me ajudaram muito”, destacou durante a entrevista.
Além da ajuda recebida para dar continuidade aos trabalhos da instituição, dona Otília também realizava “pedágios” para arrecadar dinheiro. “A raça me motivava a seguir em frente. Queria formar homens, pessoas”, afirmou.
Um dos antigos adolescentes atendidos, Pércio Fidelis, de 46 anos, integra a administração municipal e atua como voluntário da instituição. “Já trabalhei na Jacto, fui coordenador do SIM e atualmente sou voluntário. É um legado que ela nos passou. Dona Otília inspirava e ainda inspira muita gente”, afirmou.
Fidelis destacou que, ao longo dos 56 anos de existência do serviço, pelo menos 5 mil jovens foram atendidos, média de aproximadamente 100 por ano. Apesar dos desafios enfrentados, dona Otília nunca pensou em desistir. Durante a entrevista, enfatizou que as pessoas devem prestar bastante atenção na caridade, pois é o que o ser humano mais precisa atualmente.
Sua trajetória, que se confunde com a história do SIM, foi registrada no livro “SIM Valeu a Pena”. Seus ensinamentos permanecem na memória dos moradores de Pompeia, especialmente daqueles que foram assistidos pela instituição.
“Dona Otília tem uma frase muito bonita que não esqueço. Ela sempre dizia: ‘O jovem não é difícil. A gente tem que aprender a amar. Isso que é difícil, porque as pessoas não sabem amar’”, concluiu Fidelis.