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Vera Cruz relembra laços com Benedito Ruy Barbosa e inspirações em suas novelas

A morte do escritor e dramaturgo Benedito Ruy Barbosa, ocorrida em 7 de julho, aos 95 anos, provocou homenagens em Vera Cruz, cidade onde o autor passou a infância e viveu experiências que influenciaram sua trajetória e parte de sua produção para a televisão.

Em reconhecimento à ligação do escritor com o município, a Prefeitura decretou luto oficial de três dias. A medida foi estabelecida pelo Decreto Municipal nº 4.664, assinado em 7 de julho pelo prefeito Rodolfo Silva Davoli. Durante o período, a bandeira do município permaneceu hasteada a meio mastro nos órgãos públicos municipais.

Nascido em Gália, em 17 de abril de 1931, Benedito Ruy Barbosa cresceu em Vera Cruz, em uma região marcada pelos cafezais e pela presença de famílias de imigrantes japoneses e italianos. Ele morou nas proximidades da avenida Sete de Setembro e levou para sua obra referências da vida rural, da imigração e dos costumes do interior.

O pai do escritor, Otávio Barbosa, fundou e dirigiu o jornal “A Voz de Vera Cruz”. Após a morte dele, em 1942, Benedito, o mais velho de cinco irmãos, começou a trabalhar ainda jovem para ajudar no sustento da família. Seu primeiro emprego foi como auxiliar de guarda-livros em uma firma comercial. Posteriormente, também trabalhou como vendedor de verduras e faxineiro.

Em 1954, foi aprovado em um concurso promovido pelo jornal O Estado de S. Paulo e contratado como revisor. Depois, atuou como repórter, redator publicitário e roteirista, até se consolidar como um dos principais autores da teledramaturgia brasileira.

Entre as obras escritas por Benedito Ruy Barbosa estão “Pantanal”, “Renascer”, “O Rei do Gado”, “Terra Nostra”, “Paraíso”, “Sinhá Moça” e “Meu Pedacinho de Chão”. Suas histórias ficaram conhecidas por retratar o universo rural brasileiro, a imigração, os conflitos pela terra e as transformações vividas no campo.

História de Vera Cruz foi associada a ‘O Rei do Gado’

Uma história envolvendo famílias de Vera Cruz foi apontada como uma das referências para “O Rei do Gado”. Reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em 1997 mostrou semelhanças entre a trama da novela e a trajetória das famílias Mezenga e Haraguchi, ligadas à história da cafeicultura no município.

Na vida real, Zoraide Mezenga, filha de um imigrante italiano, e Tadashi Haraguchi, descendente de japoneses, viveram um relacionamento enfrentando a resistência familiar. Os dois namoraram às escondidas durante três anos e fugiram para se casar em Aparecida, em janeiro de 1953, abrindo mão da herança.

Na novela, o romance entre Henrique Mezenga e Giovanna Berdinazi também enfrenta a oposição de duas famílias rivais de origem italiana. A semelhança entre as histórias levou descendentes de Zoraide a relacionarem o episódio vivido em Vera Cruz à construção da trama. Segundo familiares ouvidos na época, Zoraide e Benedito Ruy Barbosa cresceram juntos na cidade.

A família Berdinazi também existiu na região, mas, conforme os relatos reunidos pela reportagem, não mantinha rivalidade com os Mezenga. No Cemitério Municipal de Vera Cruz, os jazigos das duas famílias ficam lado a lado.

As experiências vividas no interior também apareceram em outras produções. Em “Meu Pedacinho de Chão”, Benedito Ruy Barbosa abordou o universo rural que conheceu durante a infância. Já em “Terra Nostra”, o próprio autor declarou que as histórias dos imigrantes italianos evocavam lembranças de amigos e parentes daquele período.

A ligação com Vera Cruz foi recordada durante as comemorações dos 90 anos do município, em um documentário histórico produzido pela administração municipal. Entre os entrevistados estava Abib Miguel, amigo de infância do dramaturgo, que relatou lembranças da convivência entre os dois na cidade.

Benedito Ruy Barbosa morreu em São Paulo em decorrência de complicações de insuficiência renal crônica. O autor deixou uma obra marcada pela representação do interior brasileiro e por referências às paisagens, aos costumes e às pessoas que conheceu desde a infância.

Academia destaca passagem do escritor por Marília

A Alac (Academia de Letras, Artes e Cultura de Marília) também divulgou nota de pesar pela morte de Benedito Ruy Barbosa. A manifestação foi feita pelo presidente da entidade, Guimarães Ortega, e pela diretoria.

Segundo a Academia, o escritor estudou em Marília e integrou a corporação musical do colégio que frequentava. Durante esse período, teria presenciado uma situação real que, décadas depois, também serviria de inspiração para uma das cenas de “O Rei do Gado”.

O episódio teria ocorrido em 1945, durante uma homenagem aos pracinhas da FEB (Força Expedicionária Brasileira) que retornavam da Segunda Guerra Mundial. Benedito participava da banda do colégio responsável pela recepção aos combatentes e, conforme a entidade, presenciou o momento em que uma família, em vez de reencontrar o filho, recebeu uma medalha em homenagem ao soldado morto.

De acordo com a Academia, a lembrança foi posteriormente transformada em ficção na cena em que a família de Giuseppe Berdinazi recebe uma condecoração militar.

Em nome da presidência e da diretoria da Alac, o escritor Ramon Barbosa Franco, ocupante da cadeira 34, que tem Osório Alves de Castro como patrono, destacou a ligação do autor com a região.

“Benedito Ruy Barbosa foi um ícone da teledramaturgia brasileira e nós, da Academia de Letras, Artes e Cultura de Marília, prestamos esta justa homenagem póstuma a um autor que partiu da nossa região para adaptar em enredo muito do que viveu por aqui. O Brasil perde uma das suas maiores referências contemporâneas nas letras e nas telenovelas”, afirmou.

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