Um fóssil de serpente descoberto por pesquisadores do Museu de Paleontologia de Marília está contribuindo para ampliar o conhecimento sobre a evolução das cobras. Batizada de Tametara mirim, a espécie viveu há cerca de 80 milhões de anos e possuía características compatíveis com a vida subterrânea.
O fóssil foi encontrado em 2020 por William Nava e Giovanna Paixão, em uma pedreira na região de Presidente Prudente. O material preserva cerca de 42 centímetros do corpo da serpente e foi localizado em uma rocha com idade estimada entre 85 milhões e 75 milhões de anos.
A rocha pertence à Formação Adamantina, do Grupo Bauru, conjunto de rochas sedimentares do Cretáceo Superior. Segundo os pesquisadores, trata-se do primeiro fóssil articulado de cobra encontrado no Brasil, com os ossos ainda conectados. Os registros anteriores de serpentes do período no país eram formados apenas por vértebras isoladas.
As conclusões foram apresentadas em um estudo publicado na revista científica Nature. O trabalho foi liderado por Tiago Simões, da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos; Nicolas Di-Poï, da Universidade de Helsinque, na Finlândia; e Annie Hsiou, da USP (Universidade de São Paulo), com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).
A descoberta traz novas informações para o debate sobre o ambiente em que surgiram as primeiras serpentes. O estudo não determina se a origem ocorreu no mar, no subsolo ou na superfície terrestre, mas aponta que diferentes linhagens já ocupavam ambientes distintos durante o Cretáceo. Os resultados indicam que hábitos subterrâneos, terrestres e marinhos apareceram cedo na história evolutiva do grupo.
Para analisar o interior do crânio sem danificar o fóssil, a equipe utilizou a microtomografia computadorizada e produziu modelos digitais tridimensionais. Os ossos densos e sobrepostos do teto do crânio, o formato do ouvido interno e as características da região relacionada ao processamento da visão apontaram para um modo de vida subterrâneo.
Os cientistas também compararam a Tametara mirim com a Dinilysia patagonica, serpente encontrada na Argentina que viveu no mesmo período. Apesar da proximidade evolutiva, a espécie argentina apresentava características compatíveis com hábitos terrestres e não adaptados à vida subterrânea.
Segundo os autores, a comparação demonstra que as serpentes do Cretáceo já apresentavam diversidade anatômica, sensorial e ecológica. Os resultados também indicam que nenhuma das espécies primitivas conhecidas representa, isoladamente, a condição ancestral de todas as cobras atuais.
O nome da nova espécie faz referência às suas características. “Tametara” significa “adornada”, em alusão à crista pronunciada no topo do crânio, enquanto “mirim”, de origem tupi-guarani, indica o pequeno porte do animal.